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Vol. 29 (2)
2025



Artigos

Quebra-cabeças de narciso: a etnografia defronta-se com o delírio e se “hospeda” no Hotel da Loucura – Rio de Janeiro

Luciano von der Goltz Vianna

O presente artigo parte de um debate que visa compreender como os regimes disciplinares da antropologia conduzem o pesquisador a seguir um protocolo específico de questões e interesses em suas pesquisas. O objetivo, aqui, é discutir sobre os

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Artigos

Por trás das crianças, dos objetos e dos cuises: agência e pesquisa em um bairro periurbano de Córdoba (Argentina)

Rocío Fatyass

Neste artigo retomo ideias emergentes de um projeto de pesquisa com crianças que acontece em um bairro periurbano da cidade de Villa Nueva (Córdoba, Argentina) e discuto a agência das crianças e sua participação na pesquisa em ciências

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Artigos

A propósito da construção de conhecimentos sobre o ecossistema amazônico a partir de uma instituição científica brasileira

Aline Moreira Magalhães

A produção de um saber moderno acerca da flora e fauna amazônicas incorpora, desde as expedições naturalistas do século XVIII, conhecedores e conhecedoras por vivência daquele ecossistema. No Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

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Interdisciplinaridades

Viver numa casa do Siza: a experiência da arquitetura de autor na Malagueira, Évora

Juliana Pereira, Ana Catarina Costa, André Carmo, Eduardo Ascensão

Este artigo retoma os estudos sobre a casa e o habitar desenvolvidos pela Antropologia e pela Arquitetura portuguesas, acrescentando-lhes um olhar vindo das geografias da arquitetura, para de seguida explorar a forma como os habitantes de edifícios

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Dossiê “Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses”

Introduction: Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses

Annabelle Dias Félix, Maria João Leote de Carvalho, Catarina Frois

In the global political landscape, as far-right parties gain prominence, populist rhetoric advocating for harsher justice and security policies is becoming increasingly prevalent. Proponents of this rhetoric base their discourse on “alarming”

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Dossiê “Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses”

Privatizing urban security: control, hospitality and suspicion in the Brazilian shopping

Susana Durão, Paola Argentin

In this article we argue that hospitality security – a modality that confuses control and care – operates through the actions of security guards in the creation of what we call pre-cases. From a dense ethnography accompanying these workers in a

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Dossiê “Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses”

“Abuso policial, todos os dias o enfrentamos”: notas etnográficas sobre violência policial racista

Pedro Varela

A violência policial racista é uma das facetas mais brutais do racismo na nossa sociedade, refletindo estruturas de poder e opressão que marginalizam setores da sociedade. Este artigo sublinha a importância de compreender essa realidade,

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Dossiê “Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses”

Marginality, security, surveillance, crime, imprisonment: reflections on an intellectual and methodological trajectory

Catarina Frois

This article engages with contemporary anthropological and ethnographic methodological debates by reflecting on the challenges of conducting research in contexts related with marginality, deviance, surveillance, and imprisonment. It examines the

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Dossiê “Beyond penal populism: complexifying justice systems and security through qualitative lenses”

Navigating the labyrinth: qualitative research in the securitized border regions of North Africa

Lydia Letsch

Qualitative researchers face unique challenges in the dynamic domain of border regions, particularly when venturing into highly securitized areas with a constant military presence, advanced surveillance, and restricted access zones. This article

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Memória

Uma vida, muitas vidas: entrevista com Victor Bandeira, etnógrafo e viajante

Rita Tomé, João Leal

Falecido recentemente, Victor Bandeira (1931-2024) desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da museologia etnográfica em Portugal. Foi graças às suas expedições a África (1960-1961, 1966, 1967), ao Brasil (1964-1965) e à Indonésia

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Prémio Lévi-Strauss

Da “nota de pesar” à “injusta agressão”: notícias sobre morte escritas pela PMSC

Jo P. Klinkerfus

Este trabalho é uma versão reduzida e sintetizada da etnografia realizada do PMSC Notícia, a plataforma de notícias da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC). A partir das notícias sobre a morte, o morrer e os mortos publicadas no site no

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Vol. 29 (1)
2025



Artigos

“Chega desta falsa guerra”: ecologias de valor, operários e ambientalistas na Itália do Sul

Antonio Maria Pusceddu

Este artigo mobiliza as ecologias de valor como um quadro concetual para dar conta dos conflitos, contradições e dilemas decorrentes da experiência da crise socioecológica contemporânea. Baseia-se num trabalho de campo etnográfico em Brindisi,

[+]


Artigos

“Preventing them from being adrift”: challenges for professional practice in the Argentinean mental health system for children and adolescents

Axel Levin

This ethnographic article addresses the difficulties, practices, and strategies of the professionals of the only Argentine hospital fully specialized in the treatment of mental health problems of children and adolescents. More specifically, it

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Artigos

Fazendo Crianças: uma iconografia das ibejadas pelos centros, lojas e fábricas do Rio de Janeiro, Brasil

Morena Freitas

As ibejadas são entidades infantis que, junto aos caboclos, pretos-velhos, exus e pombagiras, habitam o panteão da umbanda. Nos centros, essas entidades se apresentam em coloridas imagens, alegres pontos cantados e muitos doces que nos permitem

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Artigos

To migrate and to belong: intimacy, ecclesiastical absence, and playful competition in the Aymara Anata-Carnival of Chiapa (Chile)

Pablo Mardones

The article analyzes the Anata-Carnival festivity celebrated in the Andean town of Chiapa in the Tarapacá Region, Great North of Chile. I suggest that this celebration constitutes one of the main events that promote the reproduction of feelings of

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Artigos

Hauntology e nostalgia nas paisagens turísticas de Sarajevo

Marta Roriz

Partindo de desenvolvimentos na teoria etnográfica e antropológica para os estudos do turismo urbano, este ensaio oferece uma descrição das paisagens turísticas de Sarajevo pela perspetiva do turista-etnógrafo, detalhando como o tempo se

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Memória

David J. Webster em Moçambique: epistolário mínimo (1971-1979)

Lorenzo Macagno

O artigo comenta, contextualiza e transcreve o intercâmbio epistolar que mantiveram, entre 1971 e 1979, o antropólogo social David J. Webster (1945-1989) e o etnólogo e funcionário colonial português, António Rita-Ferreira (1922-2014).

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Dossiê "Géneros e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana"

Género e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana: introdução

Luzia Oca González, Fernando Barbosa Rodrigues and Iria Vázquez Silva

Neste dossiê sobre o género e os cuidados na comunidade transnacional cabo-verdiana, as leitoras e leitores encontrarão os resultados de diferentes etnografias feitas tanto em Cabo Verde como nos países de destino da sua diáspora no sul da

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Dossiê "Géneros e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana"

“Vizinhu ta trocadu pratu ku kada casa”… Cuidar para evitar a fome em Brianda, Ilha de Santiago de Cabo Verde

Fernando Barbosa Rodrigues

Partindo do terreno etnográfico – interior da ilha de Santiago de Cabo Verde – e com base na observação participante e em testemunhos das habitantes locais de Brianda, este artigo é uma contribuição para poder interpretar as estratégias

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Dossiê "Géneros e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana"

“Eu já aguentei muita gente nessa vida”: sobre cuidados, gênero e geração em famílias cabo-verdianas

Andréa Lobo and André Omisilê Justino

Este artigo reflete sobre a categoria cuidado quando atravessada pelas dinâmicas de gênero e geração na sociedade cabo-verdiana. O ato de cuidar é de fundamental importância para as dinâmicas familiares nesta sociedade que é marcada por

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Dossiê "Géneros e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana"

Cadeias globais de cuidados nas migrações cabo-verdianas: mulheres que ficam para outras poderem migrar

Luzia Oca González and Iria Vázquez Silva

Este artigo toma como base o trabalho de campo realizado com mulheres de quatro gerações, pertencentes a cinco famílias residentes na localidade de Burela (Galiza) e aos seus grupos domésticos originários da ilha de Santiago. Apresentamos três

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Dossiê "Géneros e cuidados na experiência transnacional cabo-verdiana"

The difficult balance between work and life: care arrangements in three generations of Cape Verdean migrants

Keina Espiñeira González, Belén Fernández-Suárez and Antía Pérez-Caramés

The reconciliation of the personal, work and family spheres of migrants is an emerging issue in migration studies, with concepts such as the transnational family and global care chains. In this contribution we analyse the strategies deployed by

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Debate

Estrangeiros universais: a “viragem ontológica” considerada de uma perspetiva fenomenológica

Filipe Verde

Este artigo questiona a consistência, razoabilidade e fecundidade das propostas metodológicas e conceção de conhecimento antropológico da “viragem ontológica” em antropologia. Tomando como ponto de partida o livro-manifesto produzido por

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Debate

Universos estrangeiros: ainda a polêmica virada ontológica na antropologia

Rogério Brittes W. Pires

O artigo “Estrangeiros universais”, de Filipe Verde, apresenta uma crítica ao que chama de “viragem ontológica” na antropologia, tomando o livro The Ontological Turn, de Holbraad e Pedersen (2017), como ponto de partida (2025a: 252).1 O

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Debate

Resposta a Rogério Pires

Filipe Verde

Se há evidência que a antropologia sempre reconheceu é a de que o meio em que somos inculturados molda de forma decisiva a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. Isso é assim para a própria antropologia e, portanto, ser antropólogo é

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Debate

Da ontologia da fenomenologia na antropologia: ensaio de resposta

Rogério Brittes W. Pires

Um erro do construtivismo clássico é postular que verdades alheias seriam construídas socialmente, mas as do próprio enunciador não. Que minha visão de mundo, do fazer antropológico e da ciência sejam moldadas por meu ambiente – em

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Nota sobre a capa

Nota sobre a capa

Pedro Calapez

© Pedro Calapez. 2023. (Pormenor) Díptico B; Técnica e Suporte: Acrílico sobre tela colada em MDF e estrutura em madeira. Dimensões: 192 x 120 x 4 cm. Imagem gentilmente cedidas pelo autor. Créditos fotográficos: MPPC / Pedro

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Notas de Campo

Apagón y energía desde las tierras del levante

Felipe Campos Mardones

20.03.2026

This text brings together ethnographic records and reflections that emerged from an unexpected event during my fieldwork in southern Andalusia in 2025. Through my experience with the impressions triggered by the Iberian blackout on April 28, I reflect on how the inhabitants of a green landscape live, feel, and make meaning of energy, its infrastructures, and other “green promises” intertwined with the history of the territory. These records are part of my fieldstay for my doctoral thesis research.
Este texto reúne registos etnográficos e reflexões que surgiram de um acontecimento inesperado durante o meu trabalho de campo no sul da Andaluzia, em 2025. Através da minha experiência com as impressões provocadas pelo apagão ibérico de 28 de abril, reflito sobre como os habitantes de uma paisagem verde vivem, sentem e dão sentido à energia, às suas infraestruturas e a outras «promessas verdes» entrelaçadas com a história do território. Estes registos fazem parte da minha estadia de campo para a investigação da minha tese de doutoramento.
Este texto recopila registros etnográficos y reflexiones que surgieron a raíz de un acontecimiento inesperado ocurrido durante mi trabajo de campo en el sur de Andalucía en 2025. A través de mi experiencia con las impresiones que me provocó el apagón ibérico del 28 de abril, reflexiono sobre cómo los habitantes de un paisaje verde viven, sienten y dan sentido a la energía, sus infraestructuras y otras «promesas verdes» entrelazadas con la historia del territorio. Estos registros forman parte de mi estancia de campo para la investigación de mi tesis doctoral.
Ce texte rassemble des notes ethnographiques et des réflexions issues d’un événement inattendu survenu lors de mon travail de terrain dans le sud de l’Andalousie en 2025. À travers mon expérience des impressions suscitées par la panne d'électricité qui a frappé la péninsule ibérique le 28 avril, je réfléchis à la manière dont les habitants d'un paysage verdoyant vivent, ressentent et donnent du sens à l'énergie, à ses infrastructures et aux autres « promesses vertes » étroitement liées à l'histoire du territoire. Ces notes s'inscrivent dans le cadre de mon séjour de terrain pour la recherche de ma thèse de doctorat.
Notas de Campo são textos originais que disponibilizam um olhar e uma reflexão sobre experiências de investigação com apresentação de vinhetas de trabalho de campo. Os autores são convidados a incorporar representações multimodais (texto, som e imagem nos mais variados formatos) que facilitem acessos aos factos, materialidades, envolvimentos, interacções, relações e interacções possibilitadas durante o trabalho de campo. Uma secção que abre a porta aos modos como os antropólogos produzem conhecimento quando fazem as suas pesquisas, valorizando os dados em bruto, os materiais por analisar, as impressões e as imprecisões, a circunstacialidade e a natureza gerundial do fazer antropologia e que convida a soluções criativas que nos façam entrar ou aproximar às experiências vividas pelos antropólogos no campo.





· Audio File - Levantera Facinas 2025


El día del apagón ibérico soplaba el tercer día de levante en las tierras de Tarifa, un viento común y muy propio a la zona (presente 185 día del año) conocido por su orientación Este y su expresión racheada, virulenta y persistente.[1] A las 12 del día me encontraba en Tahivilla, una pequeña localidad rural de Tarifa, mi intención era conseguir hablar con unos camperos[2] para conocer como es la creación de valor en un paisaje rural cercado de latifundios y aerogeneradores. Cuando me acerqué a pedir un café, la jilguera, dueña del bar, me dice: “cafetera no tengo porque se ha ido la luz”. Nadie parecía sorprendido, ni yo, ya que los cortes de suministro han acompañado recurrentemente los meses de estancia prolongada que llevo por la zona. Decidí quedarme bebiendo una cerveza, mientras mantuve una conversación arbitraria con personal del lugar. Al transcurso de una hora ni los camperos llegaron, ni la electricidad tampoco.


Ya que el hambre me consumía me volvía al lugar que se volvió mi hogar temporal en el pueblo de al lado. Mi voluntad se vio frustrada cuando me recordé que lo que tengo es una vitrocerámica como la gran mayoría de casas en España. La sensación de un tiempo muerto aumentaba, por lo que me fui a saludar a mi vecina. Andrea, mujer campera “hecha al levante” tras vivir y trabajar como asentada en la finca de “un señorito”,[3] se presenta fresca y lúcida con sus 80 años mientras tejía su crochet sin preocuparse de mucho. A mi comentario de que ya íbamos para dos horas sin luz ella respondió: “es normal chiquillo, aquí la luz se va mucho y con levantera más”. La gente de la tienda del pueblo sostenía el mismo relato.


En vista de conocer un poco más la forma en que el pueblo percibía la falta de luz (eléctrica, ya que a esas horas aún no caía la noche) me inventé un motivo para salir andar y me fui a echar la basura. Me encontré con Isabel, una neo-local al pueblo de hace 20 años – entre otros más que lo eligen residencia para quedarse – me comenta que es un corte de tres países, y que “como está todo tan raro con esto de las guerras, es preocupante”. Tenía sentido su preocupación, hace unas pocas semanas aparecía en televisión nacional el plan de Re-arm Europe y la recomendación de preparar un botiquín de emergencia en caso de guerra o catástrofe. Ya de vuelta, me encuentro con Andrea, mi vecina… perpleja, con ojos de plato escuchaba su radio a pilas: “El corte es en toda España (casi riendo de nervios me dice), ¿yo no creo que esto sea por el viento allí arriba también?”


Fue interesante ver la centralidad que tuvieron las personas mayores aquel día, al caer la noche varias familias recurrían a ellas – entre esos a mi vecina – por mantener aún aquella hornilla con “butano”, la radio a “pilas” o un par de velas. Más allá de reflejar la poca preparación civil a una emergencia, revelaba la altísima dependencia eléctrica en la vida de hoy. Efectivamente, no se trataba solo de quedarse sin luz, sino que también de la electricidad responsable de activar la vitrocerámica para la comida, o de la bomba eléctrica que permite que todo el pueblo tenga suministro de agua potable. Manuel, un trabajador de un hotel de Tarifa, – quien pasaba a echarse un café, gracias al butano y molinillo manual de Andrea –, lo ilustraba así:



“las puertas con tarjetas tienen batería, pero como no hay ordenadores no podíamos hacerles las tarjetas a los clientes… date cuenta de que es la luz, que es todo la luz, el termo de agua caliente, la vitro para cocinar, el teléfono para llamar y ahora los coches eléctricos, es que todo es luz.”



Después de que la conciencia de un apagón a escala nacional se cristalizara entre los vecinos de la campiña, las pilas de la tiendecita local habían volado y la filas en las gasolineras se alargaban. Más tarde, me enteré de que algunas estaciones de Tarifa llegaron a no poder suministrar combustible, pero no solo porque no podían dejar registro de factura, sino porque las propias bombas de suministro dependían de electricidad para hacer llegar el combustible hasta la manguera de la superficie.


A la mañana siguiente me di una vuelta por los bares del pueblo, buscando recoger las impresiones del apagón. Me interesaba conocer las percepciones, sobre todo teniendo en cuenta que el medio rural de Tarifa se convive desde hace años con un energopaisaje densamente poblado por aerogeneradores desde el primer boom de renovables en España.



Figura 1
– Noche de apagón. Escuchando la radio con Andrea, con café gracias al butano y el molinillo de mano (Facinas, Tarifa 2025). Fuente: Fotografía del autor.


Además de la creencia generalizada de que se escondía información y de que “Putin ya había tirado la bomba” (también comprensible en la coyuntura de crispación geopolítica de nuestros tiempos), oí un vecino rural de Facinas que reclamaba: “es que como va a ser… que con la pechá[4] de levante que tenemos, y con todos estos molinos, estuvimos a oscuras…”.


Paradójicamente, aunque en Tarifa y la comarca del campo de Gibraltar sea hoy un territorio por donde “comienza” gran parte de la energía de España – ya sea por la concentración de 32 parque eólicos en el medio rural Tarifeño, o por el hecho de que la bahía de Algeciras concentre un polígono poblado de infraestructuras energéticas,[5] la comarca fue la zona con más horas de oscuridad de España.[6] Si en Bilbao el suministro se recuperó a las 14h, o en Madrid y Barcelona a las 18h, Tarifa y gran parte de la comarca no recibo suministro eléctrico hasta las 7h del día siguiente.


Esto me hizo pensar… Tarifa también es el enclave que en los años 90 se eligió para el paso del cable de interconexión eléctrica España-Marruecos, un cable con dos líneas de 400 Kilovoltios cada uno, instalado en dos tandas, una en el año 1996 y la otra en el 2002 por Red Eléctrica de España. Obra planificada para dar estabilidad a la red eléctrica europea y permitir la evacuación y comercialización del excedente energético de Francia y España sobre Marruecos. No obstante, el día del apagón, el cable que, en el año 1996, ponía nervioso a Red Eléctrica en Madrid, por algo que los tarifeños conocen como “la guerra del cable”, volvía a hacer historia, pero de otra forma. En titulares de prensa aparecía tres días después del apagón: “El cable de Tarifa hasta Marruecos 'salva' a España de una mayor crisis eléctrica (periódico digital Área Costa Sol, 30 abril 2025).


Se trataba del mismo cable que en el año 1996 movilizó al pueblo de Tarifa en un oposición masiva y frontal contra la decisión estatal y europea de que el cable de interconexión del tramo España-Marruecos pase por esta zona. Resistencia que se fundaba por los posibles efectos en la salud humana y de los caladeros del voraz[7] que eran la base del sustento de las economías pesqueras del pueblo.


Más allá de ese relato heroico, personificado en la prensa por un cable (y curiosamente, no por la energía que suministraba Marruecos en sí), la percepción de esta salvación fue mucho más diferente en tierra, sobre todo en los habitantes de la comarca. Así lo escuché en el bar, por una enfermera que durante la noche del apagón ejercía su turno en el hospital Punta Europa de Algeciras: “Dicen que están pasando electricidad desde Marruecos a España, pero ¿adónde va?, que a Algeciras todavía no llega”.


Varias semanas más tarde me encontraba haciendo una entrevista a un antiguo promotor de energías renovables residente en Tarifa. Hablamos sobre la incidencia del apagón en el sector. Con fascinación me comentó una idea que a simple vista parecía absolutamente contraria a la vivencia de la enfermera de una ciudad a 21km de Tarifa:



“Date cuenta de que en el Telediario apareció que la subestación de Tarifa fue la primera ciudad en recibir electricidad en España, porque la subestación de Puerto de la Cruz recibió electricidad desde (la central de) Fardoua de Marruecos y la pasó por el cable. A partir de ahí 900 MW de energía y ¡pum!, ahí lo tienes, electricidad para España.”



Perplejo, le pregunté que cómo era eso posible si Tarifa recibió electricidad a las siete de la mañana del día siguiente (incluso ocho de la mañana en algunas zonas).



“[…] porque las subestaciones de transporte son una araña, primero deben conectarse en red y luego dan el suministro a las subestaciones pequeñas que dan distribución para las casas, está, por ejemplo, con una línea de 400 kvt por los que conecta con Puerto de la Cruz [subestación], luego va a puerto Real en Cádiz, y luego va subiendo a otras, después cuando está estabilizada enciende toda la red para las pequeñas.”



La percepción de este promotor energético se veía obnubilada frente a las maravillas de las infraestructuras de interconexión eléctrica, daba igual donde iba la energía, lo importante era que llegara. Sin embargo, no ponía en cuestionamiento la fuerte centralización de la gestión y acceso a la energía en el territorio, una energía que cada vez que tengo oportunidad pregunto ¿a dónde va?, tanto operarios eólicos, como camperos, siempre me dicen que a “Barcelona o a Madrid", otros a veces también replican: “ya arriba, luego vuelve pa' abajo”.


El apagón, de alguna forma, iluminaba no solo el grado de dependencia eléctrica, tan cotidiana entre los vecinos de un pueblo (como de gran parte de la sociedad contemporánea), sino que, a su vez, reveló como las infraestructuras de generación y distribución de Tarifa (y la comarca) iluminan una estructura fuertemente centralizada en el suministro energético español. Pero además de ello era capaz de mostrar el diseño tácito de centros y periferias, propias a una historia de viejas estructuras regionales en España, dispuesta entre polos urbanos e industrializados más valiosos y otros polos menos valiosos del sur.


La distribución de la energía en un sentido amplio en España no puede explicarse al margen de la historia de la estructura regional que devino de la industrialización de las regiones del norte de España, país vasco, Madrid, Cataluña y parte del país valenciano. Sin embargo, en Andalucía, una tierra caracterizada por una estructura agraria basada en el rentismo y el latifundio, la abundancia de campesinos sin tierra y mano de obra barata hizo que la industrialización fuera cuando menos frustrada o tardía (Cabezas Delgado 1985). En el caso de Tarifa y gran parte de la comarca, esta situación se vivió a través del sangrado de poblaciones hacia el norte en los 60. Un campero y antiguo corchero que hizo parte de esta historia me lo ponía así cuando visitaba Facinas: “Aquí no quedaba ná, ni campo, ni monte ni ná”.


De todo ello no es casualidad que gran parte del paisaje de aerogeneración eólica de Tarifa (y gran parte de la comarca y la propia provincia) discurra en la superficie de los latifundios. Efectivamente el viento de levante sopla libre por los cielos, pero su cosecha se hace por el suelo. En un territorio donde la distribución y acceso a la tierra se ha marcado por la estructura agraria y el latifundio, los beneficios de un sistema energético centralizado no podían no concentrarse en unos pocos. “Los molinos le han caído a los señoritos, pal pobre y el pelao ná”. Me decía Paco, un campero de Tahivilla, hijo de los colonos de un pueblo que es una excepción a toda regla. Pueblo que garantizó el acceso a 25 hectáreas de tierra por familia a partir de la expropiación de un latifundio, como parte de una política de la II república española. Muchas décadas más tarde, a fines de los 90, pese al avance de varios precontratos para unos proyectos eólicos firmados por la segunda generación de aquellos colonos, los cinco parques eólicos terminaron por ser reubicados en terrenos de dos antiguos terratenientes de la zona. “Todos los pobres juntos no piden limosna”, me explica un antiguo presidente alcalde de esta pedanía rural.


Es quizás por ello que en todo el monte y la campiña de Tarifa ha sido común encontrarme con poblaciones rurales profundamente desafectadas por aquel paisaje eólico, uno que a simple vista parece tan evidente al ojo del forastero… pero no porque no duela o no incomode escuchar “el ruido de los molinos que parece que es una avión que no termina de despegar”, según una vecina de la aldea de Almarchal, sino porque los camperos históricamente han sido dejados al margen de las decisiones que configuraron este paisaje (incluso antes de tornarse verde).



Figura 2 –
A espaldas de los molinos. Carrera de cintas de la romería de la Virgen de la Alegría, en vía pecuaria de La Campana, pedanía del Almarchal (Tarifa 2025). Fuente: Fotografía del autor.


El hecho de que los camperos digan que los molinos “caen” del cielo refleja muy bien la percepción local que se tiene de un paisaje vivido convertido en promesa verde para el futuro de otros. En una resolución estatal del año 2006, que otorga la aprobación de interés de utilidad pública de un proyecto de parque eólico (y con ello de la posibilidad d expropiación forzada), queda muy clara una historia que es de más largo alcance que la del despegue eólico en el territorio.[8] Esto porque tras la movilización de algunos vecinos del núcleo rural del Almarchal – la única de tipo vecinal en la historia del despliegue eólico en Tarifa – la voz de los vecinos de una aldea que guarda su origen en un antiguo asentamiento jornalero de los latifundios de la zona, eran circunscritos de la siguiente forma dentro de la sentencia para la aprobación del proyecto (y con él de ocho proyectos de parques eólicos que terminaron por ser aprobados):



“Las alegaciones suscritas por la Asociación de Vecinos del Almarchal, no aplican al caso porque sus integrantes no son propietarios de la superficie donde se proyectan las infraestructuras.”



En una conversación que varias semanas más tarde mantuve con un operario eólico (hijo de camperos), me hice consciente de que las dinámicas que han puesto en valor al viento de levante de Tarifa son el reflejo de una misma historia y una forma clave de entender la percepción que las poblaciones tienen de estos procesos, en este paisaje tornado verde. Uno en el que el viento fue un vector clave de la comodificación no solo energética, sino también turística del territorio.



“¿Tu conoces lo del accidente del transformador? Murieron dos chavalas, una de Facinas y otros tantos heridos, todos eran camareras y limpiadoras del hotel, la mayoría de Tarifa… pos la sentencia llegó hace poco, ni Endesa ni el hotel tienen que pagar nada… al otro día del accidente el hotel estaba abierto, el dueño no cerró, ni por respeto, dijo que era temporada alta […] date cuenta, si antes había un transformador para 20 casas, hoy, con el reventón turístico, esas 20 se han vuelto 50 o 60, más los hoteles… y claro la construcción ilegal es lo suyo por la demanda turística que tiene Tarifa… y a lo mejor el hotel está ahí, pero y ¿cuántas casas están colgadas [al transformador]? […] Además una casa ya no solo es la televisión y el frigorífico, ahora es que el aire [acondicionado], el calentador, la placa [vitrocerámica] pa' cocinar, todo es luz… normal que no reventara antes”




Figura 3 – Antigua señalética vial de acceso a Tarifa (2024). Fuente: Fotografía del autor.


El accidente por la sobrecarga del trasformador,[9] el poco o nulo mantenimiento desarrollado por la empresa distribuidora de suministro eléctrico (Endesa), sumado a las lógicas de encarecimiento del valor del suelo y turistificación, enlazan, de alguna forma la forma en que las poblaciones locales de Tarifa experimentan cotidianamente la energía, así como el valor otorgado al territorio y sus habitantes. El mismo técnico replicaría:



“… El problema aquí es Endesa [la empresa que lleva la distribución] ¿tú no te fijas la de cables y postes que tienen llenas de abrazaderas y empalmes? ¿Las soluciones que dan? Tienen el cable malo, está todo lleno de empalmes, solo dan soluciones baratas…como no vamos a tener cortes con el levante si todo está así, hecho polvo, no invierten nada para la gente…”


“En Tarifa desde los años 80 que hay parques eólicos creando energía, ¿como es posible que hoy, siendo 2025, todavía haya pedanías y enclavados que no tengan luz?... Lo que habría que ver es que aquí se crea la energía, la juntan y se va, y luego vuelve aquí más cara… y quienes se tragan los molinos.”



Desde entonces, pongo más atención a los postes en mi trabajo de campo, una cuestión que, aunque habría visto, no se revelaría en la experiencia cotidiana hasta que la energía faltó.



Figura 4
– Postes y cableado para suministro doméstico en Facinas, Tarifa (2025). Fuente: Fotografía del autor.


Entre los camperos y marineros de Tarifa, la crítica al tipo de beneficios que conllevan estos paisajes de futuro y del tipo de valores que ha cogido el territorio (ya sean turísticos, ambientales o energéticos), es común que se funden desde la expresión: “somos nosotros los que crecimos comiendo levante”. Una expresión que refleja no solo la idea de una condición que los volvería como los legítimos beneficiarios de estos paisajes vividos (vueltos verdes), también de proceder del territorio donde hoy ya no es tanto el levante el que los obliga a “comérselo” – es decir, de convivir a su incertidumbre – sino por las propias consecuencias de su éxito, uno que todavía los confina a una vida en el presente.



Figura 5
– Andrea desde su casa en Facinas (2025). Fuente: Fotografía del autor.


Mientras tanto, mi vecina, desde su puerta, cada mañana se queda a contemplar “los molinos” para interrogar al porvenir, me dice que es “para ver si está barruntando [10] levante”.


“El levante, todo lo que trae se lo lleva, sea bueno o malo, se lo lleva” (una campera de Facinas)


Felipe Campos Mardones (doutorando ISCTE-IUL)

BIBLIOGRAFÍA
CABEZAS DELGADO, Manuel, 2002, "Andalucía en el siglo XXI: una economía crecientemente extractiva", Revista de Estudios Regionales, 63:65-83. BIBLID [0213-7525 (2002); 63; 65-83]
[1] Las notas etnográficas y las reflexiones de campo hacen parte del trabajo de una investigación doctoral integrada como uno de los casos del proyecto ENERGEO – Emerging Energo-Geographies and Political Mobilizations in the Framework of the Green Transition: An Anthropological Approach, financiado por la fundación de Ciencia y Tecnología (REF: 2022.07881.PTDC). [2] Campero, adjetivo generalizado en Andalucía para referirse a la persona con una relación directa con el campo, mayormente que vive o trabaja de él, o que su crianza estuvo envuelta en esta experiencia. [3] Señorito, en castellano se refiere al “hijo del señor”, normalmente de clase alta. En Andalucía tiene estrecha relación con el latifundismo histórico. Refiere al hijo del “terrateniente” o al propio terrateniente. [4] Pechá, de lo abundante en Andaluz de la provincia de Cádiz. [5] Concretamente tres centrales de ciclo combinado, una central térmica, una refinería más los proyectos de hidrogeno verde y amoniaco en curso. [6] “El campo de Gibraltar entre las zonas con más horas sin luz en España tras el gran apagón eléctrico” (Europa Sur, 30 de abril de 2025). [7] Voraz, se refiere a la especia Pagellus Borareveo, especie de aguas profundas del Estrecho, fue clave en la economía de pesqueros artesanales de Tarifa, entre fines de los 80 y fines de los 90, especialmente por su demanda y su alto valor comercial. [8] Resolución de 17 de abril de 2006, de la Delegación Provincial en Cádiz de la Consejería de Innovación, Ciencia y Empresa de la Junta de Andalucía. [9] “Tragedia del 100% Fun Tarifa: El transformador soportaba una demanda de electricidad superior a la que podía resistir" (Prensa: Diario La Voz Digital, 11 abril 2022) [10] Barruntando levante: en andaluz comarcal, entrando o pronosticando el viento de levante.

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