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29.06.2026
Rather than inhabiting disciplinary margins, LAB actively reworks them, transforming boundaries into sites of epistemological, aesthetic and political experimentation. Through processual, socially engaged and methodologically rigorous practices, LAB fosters inclusive and evocative forms of knowledge production, positioning the dialogue between art and anthropology as an ethical and political practice for imagining alternative worlds and responding to contemporary challenges.
DOI: https://doi.org/10.25660/np6n-9736
"Aurinaciano
o corpo na pedra
a pedra na vida
a vida na forma
Aurinaciano
o desenho ocre
sobre o mais antigo
desenho pensado […]"
— Carlos Drummond de Andrade[1]
Quando criança, adorava experimentar novos materiais que pudessem me dar outra qualidade de traçado sobre aquele alcatrão cheio de imperfeições e pontilhado de buracos de todos os tamanhos da rua onde habitava. Eram em sua maioria pequenos pedaços de tijolos de construções ali das redondezas e giz branco que trazia da escola sem a professora notar. Mas uma garrafa com água também poderia funcionar para uma intervenção mais breve e efêmera, restos de têmpera branca dos trabalhos escolares. Por vezes, atava um pedaço de gesso a um galho e prendia-o em minha bicicleta. Dessa forma, deixava longos rastros, caminhos gravados no chão da infância. Eram desenhos grandes, sem o limite opressor da folha A4. Assim como o esquema desenhado no chão do filme Dogville,[1] eram desenhos em que via meu corpo contido dentro da representação espacial.
Mais tarde, quando cresci um pouco, comecei a notar com mais atenção de que forma o mundo era ordenado e apresentado aos mapas, com linhas paralelas e meridianos que dividiam o espaço e criavam a grelha sobre a qual a cartografia se desenvolveu. Para além do caráter ortogonal e racional dessa tarefa de reordenamento de um planeta redondo sobre um planisfério, existiam ainda as fascinantes linhas pontilhadas, vermelhas e azuis sobre o globo que eu possuía. Pareciam indicar lugares mágicos como o Trópico de Capricórnio, o Trópico de Câncer ou a linha do Equador, que sempre vinha acompanhada do subtítulo: “a linha que divide o mundo ao meio”.
Fato marcante é que nessas duas dimensões da experiência da representação espacial o olho é levado para fora do corpo e vê o mundo como um plano sem fim. Esse olhar cartográfico é forçado a ver o espaço de outro ângulo, de cima para baixo e não com os olhos voltados à frente, como comumente os usamos ao caminhar, mas com uma visão extracorpórea e zenital. Os italianos o chamam de volo d’uccello, ou seja, a vista aérea, mas associada poeticamente ao olho de um pássaro.
O esforço investido pelos inúmeros cartógrafos ao longo do curso da história da humanidade para representar com precisão os espaços percorridos tendo como principal preocupação a escala, o trajeto e a direção, entre outros fatores como altimetria e acidentes geográficos, é algo brutal, se comparado com a familiaridade e facilidade que temos com esses métodos de representação nos dias atuais. Todos temos e “somos” um GPS ao serviço de alguma empresa de software e tecnologia.
Dessa forma, tudo aquilo que fazemos, os lugares onde vamos, as estradas pelas quais passamos, as ruas em que levamos mais tempo, a distância de nossos deslocamentos e até a quantidade exata de passos que demos e calorias que foram queimadas são computadas em nosso score 24/7 e guardadas em alguma base de dados, muito provavelmente na “nuvem” – que nada mais é do que o computador de alguém. Para além do lado pernicioso do controle sobre os corpos e suas atividades e toda a questão levantada sobre os limites da intimidade e privacidade, quero lançar um olhar para uma prática presente na arte contemporânea que tem como seu principal instrumento de desenho o trajeto feito por um corpo sobre um território. Prática que considera principalmente a ideia de rasto como o indício de uma intervenção, o registo de uma linha sobre um plano.
Na ação de 1997, documentada em vídeo e intitulada Paradox of Praxis 1 (Sometimes Making Something Leads to Nothing), o artista Francis Alÿs percorre as ruas da Cidade do México com uma barra de gelo de 50 quilos. Empurrando-a por alguns quilômetros até derreter por completo num dia quente, o artista chega ao limite de sua exaustão numa tarefa nonsense em que nos faz reconsiderar o seu status ou as tarefas burocráticas que executamos sem aparente valor intrínseco. Mas o que quero chamar a atenção é para o fato de que o trajeto percorrido pelo artista e sua barra de gelo são rapidamente apagados pelo calor do chão em pedra e betão da capital mexicana. Assim como uma recusa em aceitar sua intervenção, o rasto de Alÿs sobre aquele mapa urbano parece estar mais ligado ao tempo do que ao espaço em si.
Em outra obra, The Green Line, de 2004, o artista caminha 24 km pela fronteira entre Israel e Palestina com uma lata furada contendo tinta verde que demarca de forma poética o limite entre os dois Estados chamado de linha verde. Misto de ato político e lírico, a operação realizada leva-nos a questionar o ridículo da existência de muitas fronteiras e limites, revelando uma condição presente nos mapas – as linhas que dividem o mundo em si – como uma visível interferência na paisagem, uma linha desenhada sobre um chão de disputa milenar, mas também o deslocamento daqueles corpos que habitam tais fronteiras, impedidos de atravessar para o outro lado, e que demarcam, como um palimpsesto continuamente a ser reescrito, a história de sua errância.
O vagar dos corpos sobre um território, além de uma condição humana original, também pode ser encarado como um ato estético. “O caminhar foi experimentado durante todo o início do século como forma de antiarte. Em 1921, o movimento dadá organiza em Paris uma série de “visitas-excursões” aos lugares banais da cidade. É a primeira vez que a arte rejeita os lugares célebres para reconquistar o espaço urbano” (Careri 2002: 28). Essa proposta encontra eco em singulares passagens históricas como do dadaísmo para o surrealismo (1921-1924), da Internacional Letrista à Internacional Situacionista (1956-1957) e do minimalismo à land art (1966-1967). Todas elas encontram no espaço urbano a grelha proposta para o deslocamento dos corpos e seu desenho como jogo e registo de trajeto. Anos mais tarde, em 1967, Richard Long realizou a seminal obra A Line Made by Walking, que consistia no ato de caminhar continuamente sobre um gramado, até ficarem visíveis as marcas de seu percurso. Uma simples linha, de 20 centímetros de largura a aproximadamente 20 metros de comprimento. Um registo efêmero sobre uma paisagem que também se tornaria impermanente, não fosse a documentação fotográfica desse resultado feita pelo próprio artista. “A imagem da relva pisada contém a presença de uma ausência: ausência da ação, ausência do corpo, ausência do objeto. Mas é sem dúvida o resultado da ação de um corpo, e é também um objeto, algo situado entre a escultura, a performance e a arquitetura da paisagem” (Careri 2002: 125).
Vejo nesse ato performático uma ligação estreita com métodos ancestrais de ocupação e demarcação de territórios. Não por acaso esta obra foi realizada em Wiltshire, Inglaterra – onde as marcas de transformação do território remontam a milhares de anos com muros de pedras, dólmens e cromeleques, e não nos Estados Unidos, onde nasce a land art, que é feita com bulldozers e remoção de grandes porções de terra – numa investida sobre a natureza que usa seus recursos e elementos de forma extravagante e acentuada. Nas obras de Long, o único meio utilizado para a marcação do caminho na paisagem é o “seu próprio corpo, sua possibilidade de movimento, a força de seus braços e pernas: a maior pedra utilizada é a que pode ser movida por uma só pessoa, e o caminho mais longo é aquele que o corpo pode seguir num determinado período de tempo” (Careri 2002: 132). Para ele o próprio corpo é a ferramenta que o leva ao encontro da medida do mundo, é também um instrumento de desenho que marca uma figura sobre um terreno e então pode ser recebida como representação cartográfica.
Como artista que construiu sua prática voltada a deslocamentos e caminhadas, num contato profundo com os locais de investigação, tenho acrescentado desde há muito tempo em minhas metodologias o GPS como instrumento de gravação dos trajetos que são percorridos pelo meu corpo. Em longas distâncias ou curtas estadias, essa ferramenta me permite gravar com precisão de alguns poucos metros todos os movimentos realizados. Em ação, coloco-me então como o pássaro que faz o seu voo para ver o mundo de cima ao mesmo tempo que meus pés e joelhos recebem toda a leitura física do terreno atravessado. Na somatória dessas duas percepções espaciais é que traço minha idéia expandida de desenho sobre o mundo.
Passei a considerar ainda uma forma mais abrangente de ciclo e processos de vida, queria expandir tal conceito e aplicar à Geologia, com seu tempo e escalas ainda mais ampliados. Para a intervenção em Picote – aldeia que está inteiramente construída com paredes de pedra, provenientes do vale do rio Douro –, uso o dialeto centenário da região de Trás-os-Montes, o mirandês. Pintadas com cal virgem nas paredes de uma casa abandonada, lê-se que “Toda la piedra ye um pequeinho monte”. Dessa forma, o tempo geológico que se aplica à idade da pedra é atravessado por um ciclo muito mais curto, o da cultura e da paisagem local, forçando os limites do que entendemos como escala.
O deslocamento da pedra que hoje é parte do muro, mas que era parte da montanha há milhares de anos, quando inserido dentro de uma escala geológica, é um registro que se torna invisível, pois é lento demais para os olhos acompanharem ou qualquer câmera fotografar. Assim como na obra em que Allys risca o chão da cidade com o gelo que logo se evapora, a invisibilidade do movimento é fantasiada na imaginação que desenha uma linha traçada por milênios, através de movimentos tectônicos e choque de placas, terremotos, erosões e a fúria dos elementos. Um plano expandido de camadas de memórias deixadas sobrepostas e solidificadas, ora em pequenos movimentos da rocha no espaço, ora em translações e rotações planetárias.
É dentro desta abordagem geológica/poética que me achego ao território português e suas camadas ancestrais de ocupação humana. A obra Léxico Lítico (Toda Pedra é Uma Pequena Montanha) nasce a partir desta primeira experiência em Trás-os-Montes, onde pedras de xisto são recolhidas na Serra da Lousã e pousadas sobre uma estrutura de ferro que se assemelha a outdoors vistos ao longo das autoestradas. Nos remetem às prateleiras de uma biblioteca na qual repousam rochas que iniciaram a sua vida como pó ou pequenos grãos de areia, e que, após milhares de anos de sedimentação, pressão, acúmulo e solidificação, se transformam em pedra. Talvez já tenham sido montanhas, talvez venham a ser montanhas novamente ou simplesmente retornem ao mesmo pó. Observo esse tempo geológico dilatado, não linear, em que passado e futuro se entrelaçam numa dimensão temporal inconcebível para humanos, cronologicamente intangível.
Essas pedras, que escrevem uma frase que não conseguimos decifrar, são testemunhos – lugares de espera e de possibilidade. Uma linguagem das pedras, da própria natureza, ainda desconhecida, mas que, como o poeta brasileiro João Cabral de Mello Neto descreve, “uma lição que é aprendida de fora para dentro, uma cartilha muda para quem soletrá-la” (Neto 1966).
Mas posso assumir que o apuro dessa abordagem em relação à paisagem e ao território deu-se na Bienal de Cerveira de 2009. Na ocasião, fui convidado a pensar uma obra para o evento que acontece bianualmente até a presente data. Minha primeira abordagem foi procurar um mapa do local (volo d’uccello). Chamou-me a atenção a localização tão próxima à Espanha, com o Rio Minho a definir os limites dos países. E assim nasceu a ideia para Deslocando Territórios: Projecto Galiza: Coletar Rochas em Espanha (Galiza) e Trazê-las a Portugal. Após a travessia, elas são limpas, organizadas, fotografadas e desenhadas em grafite sobre PVC. Cada fragmento é reordenado e classificado, contendo uma etiqueta do seu lugar de origem.
O ato de coletar pedras e transportá-las para outro local é um dos primeiros traços da intervenção humana sobre o território, um marco no processo evolutivo e social. Carrega consigo a ideia de pertença – o lugar onde estavam e o lugar onde agora permanecem – e também de memória, intrinsecamente depositada no interior de tais pedras, o seu mineral constituinte, a sua massa, as suas características, a idade dos milénios que atravessou.
Um país dentro de outro, traduzido em desenhos e nas próprias rochas deslocadas, uma catalogação, uma (re)classificação da paisagem entendida em três momentos distintos mas complementares: a pedra – o fragmento do próprio território e da sua paisagem; o desenho – a representação do lugar; e, por último, a referência objetiva e codificada do território revelada nas coordenadas geográficas referenciadas ao lugar de origem das pedras – uma abordagem abstrata daquele mesmo território.
Após esta experiência às margens do Minho, minha metodologia de investigação e criação funde-se com a vivência do e no território. Conhecer de forma háptica e não somente ótica é o que passa a me interessar como procedimento metodológico e artístico. Por motivos um tanto quanto óbvios, em 2021 escolho Portugal para chamar de paisagem. Mudo-me para Coimbra dentro de um contexto de aprofundamento acadêmico, com uma tese de doutoramento que busca conjugar as práticas voltadas ao território dentro da arte contemporânea, suas ligações a abordagens antropológicas e arqueológicas, os cruzamentos entre o artesanato vernacular e a ocupação megalítica do território. No final de 2025, realizo uma exposição individual no Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC) em Santo Tirso, onde reúno estes primeiros trabalhos descritos acima e um novo corpo de obras, derivadas das práticas do caminhar como condição primeira do conhecimento e da transformação física e simbólica dos lugares. Nomadismo e errância como normativas para a transformação do espaço.
A proposta da exposição Traslados parte do princípio do deslocamento humano que, através dos seus mais incipientes contactos, altera e ressignifica os lugares atravessados. De acordo com Francesco Careri em seu livro Walkscapes: Walking as an Aesthetic Practice:
“Modificando os significados do espaço atravessado, o percurso foi a primeira ação estética que penetrou os territórios do caos, construindo aí uma nova ordem sobre a qual se tem desenvolvido a aquitetura dos objetos situados. O caminhar é uma arte que traz em seu seio o menir, a escultura, a arquitetura e a paisagem. A partir dessa simples ação foram desenvolvidas as mais importantes relações que o homem travou com o território.” (Careri 2002: 27)
Como artista plástico, estou interessado na condição errante da humanidade e em como se dá a ligação entre o território e um corpo em constante movimento. Tendo a pedra como a principal testemunha das alterações causadas pelo constante trânsito, a superfície do mundo torna-se o meu campo de ação e a paisagem natural o meu local por excelência.
A pré-história presente no território português em seus múltiplos sítios como o Alentejo, a Beira-Baixa, o Minho e a região de Santo Tirso fornece os pontos de conexão com uma topografia intensamente transformada pelos corpos que por aqui transitaram e as sociedades que moldaram uma geologia da transcendência. Minha prática procura conjugar imagem e rocha num mesmo objeto, lançando mão de dobras, justaposições e diagonais; linhas traçadas numa geometria invisível sobre a paisagem:
“Não a pedra pelo seu lado externo, pela conversão dos seus valores formais, mas pelas qualidades do seu íntimo, pelo cosmos que está nela e o qual nos é dado possuir na simplicidade em que a coisa vive.” (Carneiro 2003: 25)
Nas obras apresentadas nesta exposição, a mensuração do mundo é tomada a partir das proporções e relações corporais, o que torna a narrativa uma fantasia sobre o início dos tempos e a forma como modificamos o ambiente de acordo com nossas crenças, costumes e capacidades.
Dentro desta intensa movimentação entre corpo e espaço, está a obra Sarcófago (2025), uma escultura em mármore que possui seu interior feito à medida do meu próprio corpo. O mármore do qual a escultura é feita possui dois tempos, nitidamente revelados na superfície da sua pedra esculpida, trabalhada e polida, e na superfície de pedra natural, que o óxido de ferro tingiu de vermelho, ocre e castanho. O vazio que se apresenta mostra-se como possibilidade dinâmica entre os componentes fixos e os fluxos que caracterizam nossa existência. O traslado apresentado pode configurar-se como transcendência, mas também como deslocamento. Um jogo de contrapesos é estabelecido entre o volume que está no chão e o menir que se ergue nas imagens das obras próximas – uma diagonal invisível atravessa o espaço e aciona uma dança de celebração onde as peles da pedra e dos homens amalgamam-se.
A palavra “sarcófago” em grego antigo significa “comedor de carne”, uma combinação de sarx (carne) e phagein (comer). Originalmente, referia-se a um tipo de calcário que, acreditava-se, decompunha rapidamente os corpos, sendo usado para urnas funerárias. Se olharmos para o passado, a grande maioria das edificações realizadas em pedra serviu como memorial, como uma ligação entre dois mundos das quais dólmens, pirâmides e sepulturas antropomórficas cavadas em enormes rochas são apenas alguns exemplos. Interessante notar que a complexidade das construções feitas ao longo de todo o curso de uma vida servia de abrigo para os corpos que já não tinham função naquela sociedade, senão a de memória e culto – uma presença imaterial, mnemónica. Ao contrário de ser uma tumba, permanece como um cenotáfio, um memorial para um corpo indefinido, que nunca o abrigou.
A escultura também trabalha através de suas ambiguidades, onde o vazio se revela como o cheio, o peso como leveza, a pedra como carne, a ausência materializa-se em presença e o horizontal projeta-se para uma suposta verticalidade, pois o corpo já não está contido ali (ou nunca esteve). No curso da história, a pedra sempre foi substância carregada de simbologia perene, eterna e, porque não, viva.
Em contraponto a esta presença, uma outra obra escultórica domina o espaço pousada sobre o chão. Aurinaciano (2023) é um arranjo de pedras calcárias sutilmente organizado. Em seu centro, nota-se uma leve diferenciação de cores, uma simples ação de limpeza do revestimento orgânico que habitava os fragmentos de pedra de Ançã – calcário característico da região centro de Portugal e pedra intensamente usada para esculturas desde o período romano.De forma muito sutil e delicada, vêm-se duas formas, a do círculo exterior, formada pela disposição das rochas, compartilhando a sua existência com líquenes e musgos, e a de um triângulo, criada a partir da supressão de elementos exteriores e de qualquer outra forma de simbiose que se possa fazer no tempo alongado dos elementos naturais. As linhas retas da forma triangular determinam um rompimento imediato, um processo de evolução lenta e comunitária dá lugar a uma redução de meios e aceleração de caminhos.
Aurinaciano é o nome do período pré-histórico com início há mais de 45 mil anos, em que foram produzidas as artes rupestres mais antigas das quais se tem notícia. O seu nome surgiu em homenagem à cidade de Aurignac, em França. Numa clara referência ao poema “A palavra e a terra”, de Carlos Drummond de Andrade, a instalação Aurinaciano remete à ideia de que “toda forma nasce uma segunda vez e torna infinitamente a nascer” (Andrade 2012: 9).
Alguns podem dizer que, como seres humanos, dançávamos mesmo antes de fazer a agricultura. Da relação do corpo com o mundo e as suas escalas provém a nossa necessidade de tecer conexões simbólicas e visuais. Assim encontramos na dança e na música os meios de expressão mais primordiais.
A série de fotografias batizada de Quad (2025) faz clara referência à obra de Samuel Beckett em que figuras humanas misteriosas performam movimentos repetitivos e cíclicos dentro de um quadrado desenhado no solo. Calados e contidos, bailam uma dança insociável, enigmática, mas determinada. Movimentos que se acumulam como palimpsestos sobre um tabuleiro.
Nas fotografias, é apresentada uma coreografia de gestos de mensuração entre si e o mundo. Junto às pedras de cromeleques no Alentejo, faço a minha performance sempre tendo em conta os outros atores dessa dinâmica à qual são sobrepostos gráficos, cálculos de betão armado, rotas migratórias, projetos e parábolas. Pedras, como corpos, descrevem gráficos sustentados pelos parâmetros e projeções encontrados na paisagem e nas extensões dos membros e nas proporções que construímos com o mundo ao nosso redor. Não importa tanto a sua função original, mas sim que descrevam trajetos de um corpo no espaço, a memória que o construiu e ali habitou.
A mesma autora também destaca que “A única coisa certa é que o caminhar ereto é o primeiro marco daquilo que viria a se tornar humanidade”, e também que “o caminhar é uma atividade essencialmente não aperfeiçoada desde o início dos tempos” (Solnit 2016: 42). Em oposição ao “corpo da pedra” que se levanta diante de mim, há o meu corpo, de carne, estendido sobre o chão. São vetores de força dentro da composição fotográfica que traçam uma invisível e sugestionada linha diagonal que pode ser lida como o movimento, deslocamento, trânsito, como o vagar mais primordial sobre a superfície a qual chamamos Terra.
Me interessa uma forma de produção que liga diretamente a ação e o domínio de materiais, ferramentas, instrumentos, suportes e substâncias à execução da linguagem formal, da construção das obras e de soluções técnicas elaboradas e não usuais. Grande parte desse interesse provém do prazer pela manipulação da matéria. Tal artesania tem sua primeira referência no contexto familiar mais próximo, mas que também remonta à pré-história, no homo faber e no homo ludens como o elo entre o físico e o transcendente, arte, religião, corpo e espírito.
O entendimento de que caminhamos sobre as ruínas de tecido social que se perde na distância do tempo, mas pode ser encontrado como vestígio e fragmento, que pode ser habitado através de corpos esgarçados num arco cronológico de milênios é um dos grandes propulsores de minha poética. Bruce Chatwin (2008) defende:
“A evolução destinou-nos a ser viajantes. A fixação, por qualquer período de tempo, em caverna ou em palácio, foi condição esporádica na história do homem. A fixação prolongada segue um eixo cronológico de cerca de dez milhares de anos, uma gota no oceano do tempo da evolução. Somos viajantes desde que nascemos. A nossa insana obsessão pelo avanço tecnológico é uma reação às barreiras que encontramos na via do avanço geográfico.” (Chatwin 2008: 126)
Qual o ato primordial que inaugura a transformação física do espaço natural que se atravessava? Desde que a primeira rocha foi removida de seu lugar original para delimitar uma horta, construir um muro ou marcar trajetos, caminhamos sobre a superfície do planeta como agentes dessa revolução simbólica até chegarmos ao ponto de alcançar sua escala geológica temporal manifestada nos estudos mais recentes sobre o Antropoceno.
No primeiro capítulo de Walkscapes: O Caminhar como Prática Estética, Francesco Careri faz uma viagem pelo percurso que se inicia com o nomadismo personificado em Abel e depois em Caim como um mandato cultural. Essa condição de caminhador errante se desdobra nas primeiras estruturas megalíticas, depois nas primeiras pirâmides e zigurates. Muitos anos mais tarde, a relação do corpo com os lugares de passagem e de permanência é posta à prova com os experimentos surrealistas, dadaístas e situacionistas em territórios urbano-rurais e preparam o campo para o nascimento dos artistas caminhantes e da Land Art.
Para além de percorrer todo um trajeto que passa pelo caminhar como instância primeira de atribuição simbólica aos fenômenos da vida, o autor apresenta uma lista de ações que poderiam ser um útil instrumento estético com o qual se pode explorar e transformar os espaços nômadas da cidade e do campo. Ações como atravessar, perseguir, saltar, recolher, medir, encontrar, reconhecer, navegar e habitar, entre tantos outros, são postas em diálogo aberto e intercambiável com espaços/territórios como, por exemplo, um arquipélago, um mapa, uma montanha, uma malha, um recinto ou uma plataforma, para citar somente alguns.
Para mim, uma tabela como esta se apresenta como a possibilidade de um novo léxico, que identificarei aqui como proposições, como um fator estruturante e determinante de leitura, que poderia guiar-me na classificação, revisão e também como sugestão para novas obras.
Como um conjunto de obras em estado de constante recriação, a série Do Discurso do Caminhar (2022/2025) apresenta-se como uma composição de desenhos feitos a grafite sobre PVC expandido preto, de tamanhos variados e acrescidos de textos aplicados com adesivos feitos com um rotulador de relevo.
Tendo como ponto de partida tais “propostas”, um jogo de encontros aleatórios é estabelecido entre essas palavras organizadas entre ações (versos) e o que eu chamaria de situ/ações (condições espaciais e territoriais). Dessa nova relação, são criadas frases e aproximações poéticas entre o texto e os desenhos de pedras de calçada – uma pedra que já foi trabalhada por mãos humanas e que se apresenta como o próprio caminho. Assim, cada desenho carrega em si uma frase diferente e propõe ao observador uma aproximação poética com o lugar representado.
A presença desta série dentro da área arqueológica do Museu Municipal Abade Pedrosa, que divide o espaço de exposição de maneira a conjugar a sala de exposições de arte contemporânea, ganha uma camada de complexidade ainda mais profunda e liga de forma poética e abrangente a produção dos artefactos que habitam as vitrines com os valores conceituais encontrados nas frases sobre os desenhos. No projeto pensado por Souto de Moura para o museu, as salas possuem uma passagem central que interliga de forma visual todas as vitrines de maneira a criar uma apresentação cronológica, uma espinha dorsal da história humana traduzida em artefactos escavados na região de Santo Tirso.
Os desenhos da série Do Discurso do Caminhar posicionam-se então de forma a pontuar o espaço com sugestões como “atravessar valores simbólicos”, “celebrar valores estéticos”, “habitar uma plataforma”, “agarrar um arquipélago”, “atribuir rastos”, “subir frases” ou “deixar pessoas”. Posicionados lado a lado ou por oposição às peças arqueológicas, os desenhos devolvem ao público a responsabilidade sobre a autoria daquilo que estão vendo. Na superfície baça do grafite, nota-se um reflexo daqueles que observam os desenhos, tornando-os protagonistas daquela mesma história. Um dispositivo alter-ego é gerado, onde a imagem da pessoa funde-se com a da pedra, inscrevendo a experiência do público numa linha cronológica expandida.
Na coleção arqueológica do Museu Municipal Abade Pedrosa encontra-se um fragmento de lâmina alongada de dorso de secção trapezoidal em sílex castanho acinzentado e que tem aproximadamente 10mm de comprimento. Foi escavado na Mamoa da Ermida, em Santo Tirso, e repousa atualmente na vitrine da primeira sala.
O desenho Homo Faber (vers. 2) remete à nossa capacidade produtora de discursos e narrativas de significados que revestem objetos e sistemas. Segundo Foucault, cultivar a terra é o mesmo que dominar a terra, produzir discursos é o equivalente a produzir territórios. Como seres essencialmente agrícolas e pastorais, os nossos antepassados esculpiram em pedra, barro e madeira para suprir as suas necessidades físicas, ao mesmo tempo que criaram ferramentas para o acesso ao mundo invisível.
A referência para esta obra é uma pequena lâmina de sílex, mas que é desenhada em escala ampliada. O micrólito é transformado num quase menir. Remete também às imagens votivas, antropomórficas, que sugerem uma aproximação entre a substância do mundo plasmada no seu mineral e no seu criador, revelado nos atos artesanais do passado distante, em estreita conexão com o que nos tornamos hoje.
Penso que assim como os humanos do Paleolítico, nós, artistas, seguimos essa prática de encantamento e curiosidade com o mundo. Mas ao contrário dos nossos antepassados, nossa necessidade permanece restrita ao campo simbólico e relacional e não se funde com o imperativo de sobrevivência. (Apesar de que podemos considerar que necessidades simbólicas e relacionais são de extrema necessidade!) Dentro de minha prática como artista visual, convivo com coletas, objetos, materiais e sobras de trabalhos anteriores que vão sendo ressignificados e reposicionados como dispositivos de composição e método criativo e investigativo.
As rochas, fósseis, documentos e uma miríade de elementos coletados através de caminhadas ao longo dos anos são o ponto de partida da série Autopoiesis (2023). Elementos de diferentes expedições e arquivos são articulados em procedimentos característicos do conceitualismo, como a intervenção e combinação, a articulação de textos enquanto imagem, o uso da documentação e a contextualização de componentes.
O termo autopoiese (autocriação) é um neologismo cunhado em 1972 por Varela e Maturana, biólogos celulares chilenos e teóricos de sistemas, para descrever a capacidade das células vivas de se reproduzir e de se organizar. O termo designava, para eles, um novo conhecimento da “organização dos sistemas vivos” que tem como premissa a ideia de que todas as entidades vivas são unidades organizadas em torno de relações dinâmicas específicas e não qualquer essência ou conjunto de partes componentes. De modo geral, um sistema autopoiético é aquele que se gera e se reproduz por si mesmo.
Pensadas como um diário gráfico que foi constantemente recombinado ao longo do tempo, as pequenas e delicadas obras desta série tecem na exposição uma linha poética que intercala imagem e texto, objetos e imaterialidades numa dança fluida que completa um diálogo com as obras na sua vizinhança.
Seguindo uma lógica semelhante de articulação entre forma e conceito, nesta exposição apresento outra série chamada Ambulare (2023). O termo derivado do latim aprofunda essa sensação de vagar e de exploração nómada, onde o movimento é tanto físico quanto metafórico. Ao justapor uma imagem de caminhos antigos na Serra da Estrela, ou estradas romanas, com um desenho de uma pedra de xisto ou pavimento de calçadas ancestrais, a composição conecta passado e presente, bem como o tempo humano e geológico.
Assim como no início deste texto em que apresento meu interesse pelo rasto gerado pelo deslocamento, entendo que caminhos são também desenhos que se somam aos territórios vividos. A memória deixada por antigas civilizações, que viveram em terras desérticas e traçaram os seus rastros sobre areia e pedra durante centenas de anos, é também um diálogo entre corpo e espaço. Estes podem ser interpretados como um desenho sobre a superfície do planeta, ou como apresenta Bruce Chatwin em Canto Nómada, podem vir a existir através de cantos que os revelam. Nesse relato, o autor em conversa com aborígenes australianos comenta:
“Explicou ainda que cada antepassado totémico, ao atravessar o país, tinha deixado um rasto de palavras e notas musicais ao longo da linha do seu trilho e essas pistas-sonhos cobriam a terra como ‘vias’ de comunicação entre as tribos mais distantes. Um canto – disse ele – constituía um mapa e um indicador de direções. Desde que soubesse o canto, podia-se sempre encontrar um caminho através do país.” (Chatwin 2008: 27)
Os elementos provenientes de coletas como pedras de calçamento ancestrais, fotografias e desenhos evocam uma paisagem continuamente atravessada, transformada e redefinida pela presença humana. Nessas obras, fica evidente uma noção de nomadismo e transumância – onde caminhar e viajar dão novos significados aos lugares – e assim, eu questiono a maneira como moldamos o mundo através do movimento. A referência aos marcos de território e paralelepípedos – sugerindo o ato de pavimentar o caminho – ressalta o poder transformador dessas jornadas, onde as pegadas humanas e a natureza interagem através do tempo e do espaço.
A história do conhecimento possui uma trajetória que passa por repetições, insinuações e suposições antes de consolidar-se como um terreno comum e tecnicamente viável. A tecnologia desenvolvida durante os milénios de história que a humanidade atravessou refaz um caminho errante, que se caracteriza por gestos simples, ritos iniciáticos e fundadores de uma nova ordem, fenómenos observados na órbita do mundo natural e imitados pelas civilizações que os absorveram e interpretaram.
Na sequência dos vídeos composta por An Empirical Approach e An Amalgama Rehearsal, trato de discutir tal operação de construção e partilha do conhecimento usada desde a aurora da humanidade. O chão dos sítios arqueológicos onde os vídeos são realizados possui entre 6.000 e 2.000 anos de ocupação humana – um terreno fertilizado por cuidados ordinários de uma vida primeiramente nómada, coletora e posteriormente agricultora. Ao redor e sobre as rochas são realizadas a maioria das simbologias desta perspetiva de mundo, e no gesto primevo do deslocamento dessas pedras habita a génese da ocupação do território, pela transformação da paisagem e do nascimento da arquitetura.
Na introdução de Overlay, Contemporary Art and the Art of Prehistory, Lucy Lippard assinala que faz um exercício de rompimento com os métodos convencionais de olhar para as artes visuais através das lentes da pré-história, mas formula uma justaposição de duas realidades combinadas que geram uma nova, semelhante a uma colagem de experiências material e individualmente invisíveis que, quando cronologicamente somadas, manifestam-se como acréscimos à topologia do lugar: “What I’ve learned from mythology, archaeology, and other disciplines is the overlay’s invisible bottom layer. My internal method is that of collage - the juxtaposition of two unlike realities combined to form an unexpected new reality” (Lippard 1983:1).
Penso que este método assemelha-se a uma viagem no tempo por múltipla exposição. Assim como uma fotografia que combina passado e presente num mesmo plano, como se o arrasto produzido pelo movimento fosse registrado e congelado sobre esta única superfície possível. Um palimpsesto capaz de suportar todo o tempo do mundo.
Rebecca Solnit aponta que o ato de caminhar faz um trajeto igualmente distribuído entre o pensamento/propósito e o lugar, considera-os ainda como duas topografias, ou seja, uma somatória de experiências que se manifestam enquanto o locus é atravessado pelo corpo. Ambas autoras reconhecem a ideia de errância não somente como experiência de traslado, mas também como uma operação de cunho empírico e ensaístico: “quando nos entregamos ao lugares, eles nos devolvem a nós mesmos; quanto melhor os conhecemos, mais os semeamos com a cultura invisível de lembranças e associações que estará à nossa espera quando voltarmos, ao passo que os lugares novos oferecem novos pensamentos, novas possibilidades. Explorar o mundo é uma das melhores maneiras de explorar a mente, e o caminhar percorre as duas topografias” (Solnit 2016: 34).
Os títulos desta série de vídeos performáticos ligam-se a teses e postulados científicos que marcaram uma viragem significativa na concepção do mundo. Inspirados em Copérnico, Galileu, Einstein, Newton, Darwin e outros, estes sugerem que a observação do mundo natural e a sua modelagem como conhecimento geral dão-se nesse tempo alongado, desacelerado, numa íntima relação entre homem e espaço. Ela acontece na esfera da errância e da repetição.
“A new determination of effective dimensions of moving rigid bodies and their approximate integration with dislocated point masses”; “Essays for measuring the range of a body in space comparing to stones”; “On the Revolutions of the Terrestrial Bodies and the Geometrical Projections between residual corpses”, e “Attempts establish a spatially continuous surface within a bounded territory” revela-se como uma coreografia de gestos mínimos de mensuração entre corpo e mundo. Junto aos Cromeleques e menires do Alentejo ou na Citânia de Sanfins, pedras são apresentadas como duplos encarnados.
Em An Amalgama Rehearsal_Fundamental principle of dynamics between transitional bodies at opposite states_Condition A e B, meu corpo funde-se com a pedra num vaivém que mescla a natureza das duas peles. No diálogo ficcionado entre as duas superfícies – a da carne e a lítica – repousa a trajetória de nossa aventura como Humanidade. Parábolas para serem lidas através dos tempos.
Concebida como uma instalação que emula a experiência sensorial oferecida pela Pedra Formosa da Citânia de Sanfins, a obra Útero repousa no final do corredor do Museu Municipal Abade Pedrosa como um convite ao transcendente, uma passagem para outros mundos. Uma membrana que conecta o além do visível.
No filme A Caverna dos Sonhos Esquecidos, o realizador Werner Herzog entra na Caverna de Chauvet-Pont d’Arc, no sul da França, onde um conjunto de pinturas rupestres foi descoberto em 1994. Jean Clottes, um dos primeiros arqueólogos a visitar a caverna, afirma no filme:
“Povos tradicionais e, acho que os povos do Paleolítico, tinham muito provavelmente dois conceitos, que alteraram nossa visão do mundo. São os conceitos de fluidez e permeabilidade. A fluidez significa que as categorias que temos - homem, mulher, cavalo, árvore, etc. - podem mudar. Uma árvore pode falar, um homem pode ser transformado num animal. E o inverso, dadas certas circunstâncias. O conceito de permeabilidade é de que não há barreiras entre o nosso mundo e o dos espíritos. Uma parede pode falar connosco. Ou ela pode aceitar-nos ou rejeitar. […] Se reunirmos esses dois conceitos, entenderemos o quão diferente era a vida desses povos da nossa.”(Clottes, in Cave of Forgotten Dreams, Werner Herzog, 2010) (Chatwin 2008: 27)
Bem mais recente do que a Caverna de Chauvet Pont d’Arc, a ocupação da Citânia de Sanfins é estimada entre os séculos II a.C. e I d.C. Ainda assim, o trânsito entre as realidades visíveis e invisíveis, o atravessamento entre as forças físicas e transcendentais que regiam a vida, era indissociável da relação daquela sociedade com o mundo ao seu redor. Prova disto é que durante a Idade do Ferro, a entrada da câmara de transpiração era feita de forma a ter as costas voltadas para o chão, onde se escorregava para dentro do recinto. Ao sair, arrastava-se da mesma maneira para o lado de fora, lembrando o nascimento de um novo ser. A relação tecida com o mundo espiritual na forma de uma renovação do ser era tão teatral quanto simbólica, manifestada na imagem de uma pedra a parir um homem. Novamente carne e pedra em profunda conexão.
A frotagem (decalque) realizada sobre lâminas de tyvek (material feito de polietileno e extremamente resistente), do ornamento da entrada da câmara cria uma superfície de contacto entre as realidades distantes em mais de 2.000 anos. Uma pele que toca a memória daquelas comunidades castrejas ao mesmo tempo que reflete a sua ideia de ascensão e trânsito e purificação.
Numa outra obra, realizada em 2024 para a exposição Errante, na Galeria Vermelho, em São Paulo, utilizo a mesma técnica de confeção desta obra para fazer o decalque da Anta da Arca por inteiro. Acredita-se que o dólmen, localizado em Oliveira de Frades, no distrito de Viseu, tenha sido construído no Calcolítico tardio. Possui uma câmara poligonal irregular composta por sete esteios (blocos verticais) e uma massiva cobertura de aproximadamente quatro metros de diâmetro.
A proposta da obra 1:1 (Dolmen) era realizar o encontro entre duas membranas, numa prova de contacto e não uma fotografia. A técnica da frotagem permite realizar essa imagem sempre na proporção real daquilo que é retratado, mas de forma a interpretar os volumes, os relevos e a textura do material reproduzido. É como conhecer o mundo através do tato, que somente após sua captura em uma nova superfície torna-se visível.
Realizada sobre todas as oito pedras que compõem o monumento, pela parte externa de sua composição, a proposta desta obra reside na relação de escala com os elementos que constituem nossa paisagem mais próxima e cotidiana. Seria possível imaginar uma “planta baixa” dessa estrutura, tal qual as apresentações em catálogos de apartamentos à venda em novos empreendimentos? Imagens às quais estamos diariamente expostos?
Após três dias intensos de trabalho sobre o dólmen, esfregando lápis de cera preto sobre a película branca e plástica do tyvek, tenho os dedos em carne viva e o corpo debilitado. Fustigado pelo calor, pelo intenso sol de junho, pendurado em escadotes e lutando contra o vento que insistia em mover a superfície do decalque, o esforço realizado cobrou o seu preço e me posicionou brevemente no lugar daqueles que ali levantaram aquelas pedras.
Um segundo espanto é gerado quando, nas paredes brancas da galeria, as lâminas são abertas e posicionadas como estavam originalmente, mas agora, voltadas para o lado de dentro. Uma inversão de vetores, atravessamentos entre o interno e o externo, trânsitos iniciados no Calcolítico e que continuam a reverberar cinco, seis milênios depois. O espanto gerado pela escala das edificações megalíticas, agora apresentada dentro de uma arquitetura contemporânea, coloca em questão o alcance de nossa interferência, transformação e posicionamento no mundo.
Em março de 2022, as areias do Sahara invadiam a Península Ibérica e transformavam a experiência cotidiana em completa imersão cromática em tons quentes. Um mundo subitamente habitado por partículas que tinham percorrido muitos quilómetros, voando como aves migratórias que não precisam pousar.
Fiquei a imaginar os barcos de imigrantes que atravessavam o Mediterrâneo vindos da mesma origem que aquelas areias. Todos que ansiavam esperançosamente um lugar para um recomeço, uma deposição, uma sedimentação da vida, partícula por partícula. Viajante dos 1.200km que separam o ponto A do ponto B, uma vez nómada, agora depositada, estabelecida, assim se constrói a obra Ex-Patria, na atribuição dos significados de corpos migrantes em busca de um novo sítio, na comparação com a minha própria história de desterro, filho adotado de um outro país, desenraizado, mas ainda assim, acolhido.
Nesta obra, tão enigmática quanto subtil, vejo uma síntese dessa aventura a que chamamos vida. Nossa história de descoberta inicia-se quando damos nossos primeiros passos, um pé à frente do outro, num titubeante e impreciso movimento, mas que nos define como espécie e deixa nossas mãos livres para modelar a paisagem e preenchê-la com os símbolos que nos trazem consolo e conforto. Foi esse desenraizamento que nos levou a lugares impensados, por conveniência, por necessidade, mas também à revelia de nossa vontade, forçados e deslocados, muitas vezes escravizados.
Derivas, errâncias, traslados. Viagens, jornadas, peregrinações. E assim continuamos a existir, numa jornada entre o que fomos e o que queremos ser.
Bio:
1976, São José do Rio Preto, Brasil.
Possui licenciatura em Educação Artística (1999) e Mestrado em Artes (2006) pela UNICAMP, Brasil. Atualmente vive e trabalha em Coimbra, onde desenvolve sua investigação de Doutoramento em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. É bolseiro da FCT com o projeto “Ambulatio: Ensaios Visuais para uma prática errante”.
Marcelo Moscheta é um artista visual e pesquisador. Sua investigação tem como objetivo as relações primordiais do homem com o meio ambiente, sobre como as intervenções humanas surgem a partir de errâncias e de caminhadas. Heterocronias, deslocamento, território, paisagem e memória são os seus principais interesses.
Mais recentemente tem focado suas ações em fronteiras culturais nascidas sobre territórios antigos, a ocupação megalítica na península ibérica, o conhecimento do artesanato vernacular e a forma como a condição nómada e migrante da humanidade moldou a paisagem habitada.
Recebeu vários prêmios e bolsas de pesquisa, incluindo The Pollock-Krasner Foundation Grant (2017), The Drawing Center Open Sessions Program (2015), Bolsa Estímulo FUNARTE (2014), Prêmio de Fotografia Marc Ferrez (2012) e o I Prêmio Pipa (2010). Em 2013, participou da publicação Vitamin D2, Phaidon Publishing House, uma antologia do desenho contemporâneo. Em Portugal, foi finalista do Sovereign Portuguese Art Prize em 2025 e 2024.
O artista desenvolve uma prática de investigação fortemente ligada à residências artísticas como forma de aproximação íntima com novos territórios e paisagens. Entre elas destaca-se a Associação Pó de Vir a Ser em Évora (2025) e os Encontros de Primavera, em Trás-os-Montes (2018). Em 2016 esteve no Flora ars+natura na Colombia e no Labverde, na Floresta Amazônica. Em 2014, esteve em residência no Canadá dá para para a Vancouver Biennale e no Uruguai para 2a Bienal de Montevideo. Em 2011 participa da Plataforma Atacama e The Arctic Circle, no Polo Norte.
Notas:
[1] Carlos Drummond de Andrade, Lição de Coisas (São Paulo: Companhia das Letras, 1987).
[2] Filme de 2003, dirigido por Lars von Trier.
Andrade, C. D. de., 2012, Lição de Coisas. Companhia das Letras.
Carneiro, A. (2003). Notas para um Manifesto de Arte Ecológica. Em Alberto Carneiro. Das notas para um diário e outros textos: Antologia. Assírio & Alvim.
Careri, F., 2002, Walkscapes: Walking as an Aesthetic Practice. Editorial Gustavo Gili.
Chatwin, B., 2008, Anatomia da Errância. Quetzal Editores.
Chatwin, B., 2019, Canto Nómada. Quetzal Editores.
Herzog, W. (diretor), 2010, Cave of Forgotten Dreams [filme]. Creative Differences Productions.
Lippard, L. R., 1983, Overlay: Contemporary Art and the Art of Prehistory. The New Press.
Neto, J. C. de M., 1966, A Educação pela Pedra. Editora do Autor.
Solnit, R., 2016, A História do Caminhar. Martins Fontes.